CANDOMBLÉ DO SÉCULO XXI – A NOVA GERAÇÃO

Como falamos na edição passada, encontramos vários axés, tradicionais com bases e raízes profundas. Ratifico que antiguidade é posto e tradição. Tradição, segundo o dicionário Aurélio quer dizer: 1. ato de transmitir, entregar, 2. transmissão oral de lendas e fatos, de idade em idade, geração em geração. O que é tradicionalismo no candomblé?

Ouvimos muito os mais velhos falarem: “não se faz mais yawos como antigamente” e não se faz mesmo. Mantemos as tradições, mas não conservamos o tempo, não retemos a evolução humana. O próprio progresso tanto urbano quanto ecológico, cultural, social e religioso, fez com que as nossas tradições fossem adaptáveis e mutáveis. No âmbito urbano, podíamos ofertar presentes a Exu , Ogum, entre outros, nas estradas de terra. Hoje os bairros, (onde outrora eram pouco habitados) estão asfaltados.  No âmbito ecológico, podíamos ir às cachoeiras e fazer nossas oferendas sem nenhum “problema”, hoje entendemos que vela acesa provoca queimadas nas matas, louças e garrafas postas nos rios causam acidentes e degradam a natureza, alem de nos colocar à margem da lei de preservação da natureza, pois é crime ambiental. No âmbito cultural, por exemplo, antigamente usavam-se baianas com grandes anáguas, e ainda usam, mas por opção, por gosto, pois hoje sabemos que as baianas são tradições advindas da influencia da corte portuguesa, os tecidos e modelos influenciados pela moda francesa, haja vista os nomes dados: camisu, calçolu, que eram roupas usadas pela família burguesa e doadas às escravas. Era o que havia na época. Na África não era e não é assim. O sagrado é o pano da costa e o ojá. No âmbito social, foi a máxima do progresso. A luta contra o preconceito racial, social e religioso, fez com que os adeptos da religião se colocassem no seu devido lugar. Lugar da obediência e não da subserviência, lugar do respeito e não do medo. Muito antigamente, quando um mais novo questionava as suas dúvidas, tinha como resposta: “não está no tempo de você saber isso”. Hoje não é mais assim. A curiosidade ultrapassa os limites. A Internet, os historiadores, os antropólogos, a mídia, podem não trazer o sagrado que é secreto , mas trazem dados históricos que acrescentam, agregam valores à nossa religião. Atualmente, os lideres religiosos, tem que ter uma resposta sim, tanto para o novato quanto para o antigo. Tem que estudar sim. Tem que se adaptar sim. Entrando no âmbito mais complexo, que é religião em si, podemos perceber todas essas mudanças, algumas até imperceptíveis. Acarajé antigamente era feito com o feijão fradinho descascado, posto de molho, moído, hoje podemos comprar a farinha no supermercado. Há 100 anos, o tempo de kelê era de um ano, um ano e meio, passou para seis meses, isso dentro da roça de candomblé. Hoje, a maioria adota um tempo de três meses, podendo o neófito ir e vir para o trabalho, quando este o permite trabalhar com kelê. Então, quer dizer que esse tempo também é adaptável. Tudo isso só reforça a minha tese que, podemos ser tradicionais, sem sermos conservadores. Essa transmissão é inevitavelmente mutável. Tudo está entrelaçado.

O que é tradicionalismo no candomblé? É seguir as bases sólidas de seu axé. Esta solidez não está nos salões, nas roupas, nas festas, nas pedrarias, nas miçangas, feitos assim ou assado, Esta solidez da nova geração não está no candomblé feito para os olhos dos humanos, e sim, para a satisfação plena e vontade própria dos Orixás. Esta solidez está no sagrado, na família homogênea da casa de santo e principalmente nos resultados positivos nas vidas e nas almas dos seus adeptos. Dizem que time que está ganhando não se mexe. Mas, com propriedade de conhecimento, segurança, respaldo de quem conhece e respaldo principalmente dos Deuses e Deusas que cultuamos, podemos mexer no time para golear. Isso é ousar com sabedoria, sem arrogância.

Assim como os nossos antepassados construíram e mantiveram o candomblé herdado hoje por nós, é nossa a responsabilidade de reformular e manter o nosso candomblé, sem medos, sem preconceitos, com respeito aos orixás, para que as nossas crianças de hoje, semeiem e colham os nossos frutos. E quando elas estiverem bem velhinhas, os cabelos estiverem branquinhos e as pernas cansadas, possam também, se surpreender com o progresso, (que está a cada dia mais veloz e voraz). E quando chegar a hora delas fecharem os olhos, possam voltar ao Orum com a certeza de dever cumprido e com a convicção ainda maior de que se despediram do Aye com o candomblé ainda mais forte e aberto para mais e mais mudanças.

 

Axé e até a próxima;

Mãe Paula de Ode Kare

yapauladeodekare@hotmail.com