CANDOMBLÉ – NOSSA COLCHA DE RETALHOS CULTURAL

Voltemos à historia que aprendemos nas escolas, no capitulo colonização. Pois bem, aprendemos que os negros eram capturados na África e trazidos para o Brasil. Aqui eles se reuniam nas senzalas para cultuarem seus Deuses em forma de sincretismo, utilizando os Santos Católicos para ludibriar seus feitores. Porém , vamos mais profundamente para que possamos entender melhor o surgimento do candomblé no Brasil.

Uma das preocupações dos traficantes de escravos era mesclar as tribos em seus navios. Assim, supunham que mesclando dialeto, a cultura, as crenças, e ainda misturando tribos rivais, seria mais fácil controlar os negros e submetê-lo. Ledo engano. Ao embarcarem nos navios, junto com seus algozes, os negros sabiam que naquele momento, as diferenças eram o que menos importavam. O que importava realmente eram as semelhanças. Eles eram negros, cativos, vulneráveis e escravos. Estariam longe das suas terras, seus costumes, suas famílias e eles sequer imaginavam o sofrimento físico que estaria por vir. Daí então, cada negro começou a buscar forças nos seus ancestrais, na sua fé individual, no seu Deus(a).

Já no Brasil, eles entenderam que tais semelhanças eram a salvação de suas dores, de suas almas. Esta força passou a ser coletiva. Então eles começaram a trocar conhecimentos, cada grupo a falar de suas crenças, de seus Deuses. Um grupo começou a saber mais sobre o grupo do outro. Esta era a única forma que eles encontraram para continuar naquele sofrimento sem se abater. Os seus senhores não entendiam como aqueles negros depois de tanto trabalho, de tanta chibata, ainda encontravam forças pra cantar e dançar. Ate que eles descobriram que os cânticos e as danças eram religiosas. Se não eram católicas, eram então, profanas. Os senhores começaram a coibir a religiosidade dos escravos. Mais uma vez, os negros não recuaram. Cultuavam seus Deuses e Deusas, sobre as imagens católicas. Começa então o sincretismo religioso que ainda confunde muita gente até os dias de hoje.

Após a abolição, quatro africanas, Iyá Akala, Iyá Detá, Iyá Lusso e Iyá Nasso, vindas da Nação Ketu, resolveram unir as semelhanças e criar em um único espaço, onde pudessem cultuar, através dos conhecimentos obtidos durante a escravidão, todos os Deuses e Deusas. Assim foi fundada a primeira casa de Candomblé no Brasil. Vale aqui uma curiosidade. Iyá Lusso Danadana, regressou à África, mas antes de seu regresso nos deixou um presente. Seu Orixá, Ode Danadana, foi o primeiro Orixá a ser cultuado, na forma mais primitiva, em terras brasileiras. Esta cerimônia foi realizada no dia de Corpus Christi, por isso nesta data, festejamos Oxossi.

Passado o tempo, cada qual quis governar seu espaço, afinal, eram três mulheres para um único trono. Então essas casas foram subdivididas em: Axé Casa Branca do Engenho Velho, Axé Opô Afonjá e Axé Gantois. Contamos ainda com: Axé Gege, Axé Angola, Axé Efon, Axé Jexá, Axé Ala Koro Wo, entre outros.

Como nos primórdios da escravidão, eu, na condição de Yalorixá, amante incondicional de minha religião, candomblecista convicta, quero deixar meu recado a todos que são de Axé. Em cada discordância, dos diferentes axés existentes no Brasil, lembremos que foram as semelhanças dos nossos ancestrais (que tanto sofreram; que literalmente e verdadeiramente deram o próprio sangue), que nos proporcionaram a força e a fé, para que hoje, livres, pudéssemos contar nossas historias e cultuar os nossos Deuses e Deusas. Continuemos nas nossas semelhanças e deixemos que cada um faça a sua diferença. Só assim poderemos continuar lutando, unidos, com amor e pelo amor aos Deuses e Deusas, com inteligência, sem nos abater, por um Brasil sem preconceito, sem intolerância religiosa, com igualdade social, com igualdade racial e principalmente, com mais amor ao próximo.

Como vemos, nossos ancestrais nos deixaram uma colcha de retalhos como legado. Não cabe perder mais tempo. Peguemos esta colcha e nos juntemos numa só força, numa só fé. Que esta colcha cultural e religiosa, seja para todos de que são de Axé, uma fonte de calor humano, aconchego e perseverança.

 

Axé a todos e até a próxima!

Mãe Paula de Ode Karê

 yapauladeodekare@hotmail.com