Segundo Edain McCoy no seu livro de Introdução Prática à Arte: “A palavras “witch” (bruxa, em inglês) tem duas possíveis origens: uma alternativa é que ela provenha do termo do inglês arcaico wyk, que significa “moldar” ou “curvar”; a outra é que ela derive do termo anglo-saxão wit, que significa “ter conhecimento ou sabedoria”. De wyk vem as palavras da Arte “wicce” (dobrar, torcer) e também o termo do inglês moderno “wicked” (mau, malvado). Da raiz anglo-saxã “wit”, vieram os termos da Arte “wita” e “witta”. Assim com Wicca, os termos “Wicce” e “Witta” deixaram de ter conotações espirituais próprias e não raro os vemos combinados com outros rótulos culturais, designando uma tradição pagã inteiramente nova”.
Neste trecho do livro de Edain temos uma vertente etimológica sobre a Wicca, mas ela vai muito além disso. O que vemos em livros e artigos dos membros e praticantes da Wicca é que, esta, é uma religião, e não uma mera filosofia de vida como muitos pensam. Religião esta voltada para o princípio feminino universal. Apesar de não serem cristãos, os praticantes e seguidores da Wicca não menosprezam e nem mesmo rejeitam a existência e importância de Jesus Cristo, apenas ao o vêem como a única e perfeita crença.
Embora na Wicca se reverencie um Deus (Cornífero) e uma Deusa (Gaia é um de seus nomes), tem como seu pilar devocional a Deusa-Mãe visto que o período neopolítico não conhecia deuses, vigorava o matriarcado. Todas as religiões ancestrais visualizavam o Universo como uma generosa Mãe, pois, de acordo com o mito universal da Criação, tudo teria saído dela.
A fé e a relação de amor, respeito e interação com a Natureza é o foco principal desta crença. A idéia de que somos e fazemos parte da Natureza é o que permeia essa relação. Daí observa-se uma enorme preocupação com a preservação e o cuidado com o meio ambiente por parte de seus praticantes e seguidores.
Ainda que a Wicca seja relacionada diretamente com bruxas e magias, é perfeitamente possível que um “wiccan” passe sua vida inteira sem fazer um único feitiço, pois para ser um “wiccan” basta que haja um amor sincero pela energia dos Deuses, harmonia com a Natureza e que se faça os rituais de devoção.
A Wicca surgiu no período neolítico, em várias regiões da Europa, onde hoje se localiza a Irlanda, Inglaterra, País de Gales, Escócia, indo até o Sudoeste da Itália e a região da Britânia e na França. Quando os Celtas invadiram a Europa, quase dois mil anos antes de Cristo, trouxeram suas próprias crenças que, ao se misturarem às crenças da população local, originaram o sistema que deu nascimento à Wicca. Com a rápida expansão desse povo, ela foi levada para regiões onde se encontram Portugal, Espanha e Turquia. Embora a Wicca tenha se firmando entre os Celtas, é importante lembrar que a bruxaria é anterior á eles; mas como esse povo foi o mantenedor da Tradição, é importante que conheçamos o rudimento de seus pensamentos (assunto tratado no próximo artigo).
A bruxaria, embora seja, como já vimos, uma religião muito antiga, também pode ser considerada uma religião nova, pois foi se transformando ao longo dos tempos, mas sem abandonar suas raízes.
Ainda no livro de Edain McCoy, encontramos um excelente resumo sobre a história da Bruxaria. Vejamos:
“...Esses seres humanos primitivos viviam próximos à natureza e desenvolveram a forte impressão de que os acontecimentos futuros. A Lua foi o seu primeiro calendário e os povos antigos viam os ciclos do Sol como manifestações de uma força divina que governava as suas vidas. As três fases da Lua representavam a Deusa Tríplice – a virgem, a mãe e a anciã – e o Sol era a corporificação do Deus, que era o seu filho, amante e consorte.
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Os seres humanos primitivos eram nômades, mudavam as suas aldeias de lugar junto com os rebanhos e de acordo com o ciclo das estações. Isso fazia com que as divindades fossem associadas a lugares, objetos ou animais. Essas divindades dos rios, das pedras, dos animais, etc. ainda hoje são cultuadas na Arte tanto como manifestações divinas da natureza quanto como os elementais ou espíritos da natureza a que chamamos de fadas.
Com a chegada da agricultura e da pecuária, as aldeias passaram a se fixar em determinados lugares. A humanidade testemunhou o surgimento de uma classe especial de homens e mulheres com capacidade para controlar ou prever as forças da natureza. Essas pessoas – os primeiros sacerdotes e sacerdotisas – passaram a ser, nas tribos, mediadores entre o divino e a humanidade.
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O Cristianismo chegou devagar na Europa, no curso de vários séculos, mas a Igreja acabou sendo obrigada a travar uma dura batalha contra a confiança que o povo tinha nos seus antigos deuses e nos costumes da Antiga Religião. Em vez de tentar subverter o passado, a Igreja procurou revesti-lo com uma versão cristianizada dos antigos deuses e dos seus mitos. O que não podia erradicar ou assimilar, eles diabolizavam; e o que não podiam diabolizar, eles distorciam para adaptar à sua versão de como o universo operava.
São numerosos os exemplos de conceitos, festivais e datas comemorativas pagãs que foram assimiladas ou modificadas pelo Cristianismo. Os primeiros Cristãos enfrentaram pouca oposição, pois eles só apresentaram às massas um conceito a mais de deus-sol, que se ajustava à forma como o povo costumava cultuar. O deus da Igreja cristã, assim como o deus dos pagãos, era um sol ou o filho de uma deusa virgem, nascido no solstício do inverno; e que morria e ressuscitava para mais uma vez servir aos seu povo.
Os santuários e bosques sagrados dos pagãos europeus foram invadidos pelas versões cristãs de divindade e pelos templos da nova religião. A facilidade com que essa conquista se deu surpreende muitos pagãos modernos. Porém, tudo o que a Igreja fez foi passar alguns séculos dando ao povo europeu mais um deus, que se encaixava no arquétipo que ele estava acostumado a reverenciar. Para os pagãos, esse deus não passava de mais uma divindade, que foi, de boa vontade, acolhida entre as divindades pagãs.
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Foi a franca aceitação, por parte dos pagãos, do arquétipo do rei/deus sacrificado – e não de uma divindade individual – que tornou tão fácil para o Cristianismo, tornar-se religião dominante na Europa e ganhar força para impor a obediência ao seu “único Deus” com base em ameaças de morte.
A Bruxaria passou a ser praticada em segredo e mantida assim como fora no início: entre pequenos clãs e famílias. Contos de fadas e mitos mantiveram vivos na memória antigos deuses cultuados durante séculos, numa época em que o mero ato de assistir a um culto fora da Igreja bastava para condenar qualquer um á morte.
Durante a Idade Média, as classes abastadas passaram a se interessar pela magia, particularmente na alquimia, uma arte cujo propósito era transformar metais básicos em ouro. Seguindo costumes oriundos de práticas pagãs do Egito e do Oriente Médio, essas pessoas foram os primeiros magos cerimoniais. Elas se livravam das sentenças de morte não só porque ocupavam uma posição elevada na sociedade, mas porque concordavam em servir aos reis e rainhas e atribuíam, nos seus ritos, vários nomes ao deus judeu-cristão.
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Felizmente, remanescentes da Antiga Religião sobreviveram a ponto de atrair novamente o interesse das pessoas no final do século XIX – uma época em que também ressurgiu o interesse pela magia cerimonial. Homens cultos e influentes combinaram a antiga ciência da Maçonaria com a magia angélica e a mitologia regional pata formar sociedades secretas – sociedades das quais derivam muitos dos instrumentos e rituais da Bruxaria moderna.
Por volta dessa época, a Wicca não só renasceu como também foi redescoberta e reconstituída a partir de fragmentos de mitologias e tradições orais. Assim como uma fênix renascida das cinzas do medo e da opressão, a Bruxaria tornou-se mais uma vez acessível e assomou como uma poderosa águia comandando os céus. O princípio da reencarnação foi mais uma vez aceito e, nos ruidosos primórdios da era industrial, esses novos seguidores começaram a encarar a Mãe Terra com novos olhos e com um profundo sentimento de respeito que suscitou a necessidade de protegê-la.
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Nos anos de 1950, depois que as leis contra a Bruxaria foram revogadas na Inglaterra, a Grã-Bretanha testemunhou um interesse renovado pelo que muitos consideravam um direito: a reivindicação das crenças primitivas do seu povo. Bruxos experientes, como Sybil Leek e Gerald Gardner, divulgaram as suas crenças em público, conquistando novos adeptos e dando origem a novas tradições da Arte.
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Durante o movimento de contracultura dos anos de 1960, quando rejeitar as instituições autoritárias era uma norma entre os jovens, surgiu uma segunda onda de atração pela Bruxaria. O movimento feminista também ia de vento em popa nessa década e muitas mulheres encontravam conforto no culto a uma divindade feminina.
Ao longo dos anos de 1990 e na entrada do século XXI, testemunhamos o que se podia chamar de terceira onda do revivescimento da Bruxaria. Apesar da falta de dados estatísticos confiáveis, alguns pesquisadores realizadores de pesquisas de opinião descobriram que a Arte e as suas muitas expressões são o movimento religioso que mais cresce no mundo ocidental. Wiccanos e curiosos de todas as idades, sexos e situações econômicas estão ávidos por livros, vídeos, músicas e mitologias que aplaquem a sua sede insaciável por conhecimento.” (Se você quer ser uma Bruxa – Introdução Prática à Arte; Edain McCoy; Ed.Pensamento).
Com este rico texto histórico-informativo de Edain pudemos vislumbrar a trajetória da Bruxaria ao longo da existência humana e constatamos ser o paganismo a religião mais antiga da história do Homem. Pudemos concluir também que a Wicca é o resultado da mistura e transformação de muitos conhecimentos pagãos, contendo em si muitas vertentes; e que muitas das práticas cristãs tem origem nas crenças pagãs, sendo delas uma adaptação.
É curioso que, buscando as origens históricas do paganismo e suas crenças, nos deparamos com muitas semelhanças com as crenças modernas. Então percebemos que, talvez, cada um de nós, independentemente de nossa religiosidade, tem um pouquinho de pagão. Embora muitos discordem disso. Ao renegarmos esse passado, renegamos a nossa própria história. O fato é que ainda há muito o que ser descoberto e desvendado.
- No próximo artigo falaremos um pouco mais sobre essa religião tão antiga e ao mesmo tempo tão nova e atual, que é a Wicca.
Até lá!
Alê Ferreira
